
Os golpes com IA já chegam ao brasileiro por três caminhos: voz e vídeo clonados de alguém que você conhece, mensagens e sites falsos mais bem feitos e pedidos de Pix com urgência. Segundo os especialistas e as reportagens que consultamos, o que mudou não é o objetivo do golpe, que continua sendo levar seu dinheiro ou seus dados, e sim a qualidade da isca. Este texto separa o que é fato do que é relato de vítima, mostra os golpes mais comuns e traz o que fazer antes e depois de cair, incluindo como funciona o MED, o mecanismo do Banco Central para tentar recuperar um Pix.
Como fizemos este texto: usamos cinco fontes (em Fontes): duas reportagens do Canaltech (de 24/10/2026 e de 11/01/2026), uma do Correio Braziliense (18/10/2026), uma do BPMoney sobre o MED (01/09/2026) e o resumo do Radar Tecnológico da ANPD publicado pelo Legismap (29/07/2026). A GeekTech não testou ferramentas de clonagem de voz nem investigou casos. Também não encontramos estatísticas nacionais verificadas nessas fontes, por isso não citamos números de prejuízo.
O que mudou com a inteligência artificial
Em entrevista ao Podcast Canaltech, o pesquisador de segurança da ESET Daniel Barbosa apontou quatro efeitos da IA nos golpes digitais:
- Phishing mais convincente: a IA reduz erros de digitação e melhora o visual de e-mails e sites falsos, que antes se denunciavam por detalhes mal feitos.
- Mais personalização: os criminosos usam dados vazados, como preferências, hábitos e histórico, para ajustar o discurso a cada vítima.
- Deepfakes mais realistas: a IA eliminou muitas falhas visuais. Restam pequenas anomalias, como falta de sincronia entre voz e boca, difíceis de notar em telas pequenas.
- Pedidos de transferência por videoconferência: ele cita deepfakes usados nesse tipo de golpe.
Isso quer dizer que “ver para crer” deixou de ser um bom critério. A reportagem do Canaltech de 24/10 faz o mesmo alerta: a ausência de falhas no vídeo não garante que ele seja autêntico.
Os golpes com IA mais comuns
| Golpe | Como funciona (segundo as fontes) | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Voz ou vídeo de parente | A voz e o rosto de alguém próximo são imitados para pedir dinheiro ou simular uma emergência | Urgência, pedido de Pix e insistência para não falar com mais ninguém |
| Phishing personalizado | Mensagens e e-mails bem escritos, com dados reais sobre você, levam a links ou à entrega de senhas e códigos | Contato que você não pediu |
| Páginas falsas de governo | Sites que imitam órgãos públicos cobram IPVA, IPTU ou taxas para “regularizar” CPF ou CNPJ via Pix | Pagamento para conta de pessoa física ou de processador de pagamento |
| Pedido do “chefe” | Mensagens que imitam ordens de gestores ou executivos no trabalho | Pressa e pedido de sigilo |
| Lojas e sites clonados | Cópias do visual de lojas e bancos | Endereço com letras trocadas ou sobrando e preço muito abaixo do mercado |
| Anúncios com celebridades falsas | Depoimentos inventados e promessas de investimento | Retorno garantido |
| Golpe de relacionamento | O vínculo emocional é construído antes do pedido de dinheiro ou de dados | Pedidos que aparecem depois de semanas de conversa |
Um caso relatado: o “neto” que pedia Pix
O Correio Braziliense publicou em 18/10/2026 o relato de um idoso que recebeu um vídeo em que aparecia o rosto do neto pedindo um Pix urgente. Segundo a reportagem, ele transferiu R$ 7 mil e só depois descobriu que o rosto e a voz tinham sido criados por inteligência artificial. Esse é o relato da vítima e não foi verificado de forma independente no texto, que não informa nome, cidade, data nem banco. A manchete diz que o banco se recusa a devolver o dinheiro, mas o corpo da matéria não traz a manifestação da instituição. Ele apenas descreve o argumento típico dos bancos: o Pix foi autorizado pelo próprio cliente, com senha e no aparelho dele, sem invasão de conta.
A reportagem lembra ainda uma decisão de 2023 da Terceira Turma do STJ que reconheceu a responsabilidade de um banco em golpe contra idosos, por não barrar movimentações fora do perfil do cliente. Esse caso não envolvia deepfake, então serve de referência, não de garantia.
O que a ANPD diz sobre deepfakes
A ANPD, a autoridade de proteção de dados, publicou em 29/07/2026 o sexto volume do seu Radar Tecnológico, dedicado às deepfakes. O estudo define o termo como áudios, fotos e vídeos alterados ou criados com IA generativa, com “elevado grau de realismo”, e lista, entre os usos indevidos, golpes e fraudes baseados em clonagem de voz, imagem e identidade. Segundo o Correio Braziliense, o documento classifica esses golpes como usos indevidos de impacto relevante no Brasil. O estudo não traz uma lista de orientações ao usuário. Sua conclusão aponta para soluções técnicas, instrumentos jurídicos, letramento digital e educação midiática.
Como se proteger de golpes com IA: o que as fontes recomendam
As orientações abaixo vêm das reportagens, não de testes nossos:
- Confirme por outro canal. Interrompa a conversa e ligue para o número que você já tem salvo, ou procure o banco ou a empresa pelos canais oficiais, mesmo que voz e rosto pareçam legítimos.
- Combine uma palavra-senha em família e desconfie de pedidos urgentes de dinheiro. Em caso de dúvida, retorne a ligação para um número já salvo.
- Desconfie da urgência. Golpistas usam emergências, bloqueios de conta e ofertas que “acabam hoje”.
- Antes de pagar um Pix, confira quem vai receber. Segundo a ESET, órgãos públicos não recebem em contas de pessoas físicas nem de processadores de pagamento.
- Verifique o endereço dos sites, com atenção a letras trocadas, e pesquise lojas desconhecidas no Reclame Aqui.
- Reforce as contas: autenticação em dois fatores, senhas diferentes para cada serviço (um gerenciador ajuda) e cuidado com o que você publica.
- Desconfie de pedidos de fotos, vídeos ou gravações de voz sem finalidade clara.
Para quem usa o WhatsApp, vale ativar a verificação em duas etapas. E, para golpes que chegam por telefone, veja também o que o governo prepara sobre autenticação de ligações.
Se você caiu no golpe: o que fazer
- Procure o banco na hora, pelo canal oficial, e peça a contestação do Pix e o acionamento do MED. Anote o número do protocolo.
- Guarde as provas: o vídeo ou áudio, as conversas, os links, os comprovantes e os dados do destinatário.
- Registre um boletim de ocorrência.
- Se o golpista teve senhas ou dados, troque as credenciais, encerre as sessões abertas e comece pelo e-mail principal. Se cartões foram expostos, bloqueie-os.
- Se o banco negar, as fontes indicam recorrer ao SAC e à Ouvidoria e, depois, registrar queixa no Banco Central pelo 145 e procurar um advogado ou a Defensoria Pública.
O que é o MED e o que ele não garante
O Mecanismo Especial de Devolução é a ferramenta do Pix para tentar recuperar valores em casos de fraude, golpe ou falha operacional. Segundo o BPMoney, quem enviou o Pix e caiu em golpe tem até 80 dias, contados da transferência, para pedir o MED. O banco que recebeu o dinheiro tem até sete dias para analisar a notificação. Segundo o Senado Verifica, citado pelo Correio Braziliense, o MED bloqueia o valor na conta recebedora, mas a devolução depende de análise e de saldo disponível.
Acionar o MED não garante a devolução: o dinheiro pode já ter sido sacado ou transferido de novo. O mecanismo também não vale para arrependimento de compra nem para erro de digitação da chave feito pelo próprio usuário. Por isso, quanto mais rápido você procurar o banco, melhor.
Para pequenas empresas e para quem lida com pagamentos
As fontes citam dois riscos para o trabalho: o pedido de transferência por videoconferência com deepfake (ESET) e as mensagens que imitam ordens de gestores (Canaltech). A regra geral que elas sustentam, validar o pedido por outro canal, vale aqui também. Estas são orientações gerais da GeekTech, não das reportagens: pagamento fora do rotineiro pede confirmação por um segundo meio e, de preferência, por uma segunda pessoa, e a pressa não deve ser motivo para pular essa etapa.
A leitura da GeekTech
Já atendi clientes que caíram em golpes que nem sempre dependem de IA, mas seguem o mesmo padrão: alguém se passa por você ou por quem você conhece. Um dos casos foi o de boletos recebidos com o código trocado: o cliente achava que estava pagando a conta e o dinheiro ia para outra pessoa. Outro foi a clonagem de eSIM: com a linha da vítima nas mãos, o golpista pediu a aprovação de um empréstimo e ainda atendeu a ligação de confirmação do banco, falando com o gerente como se fosse o dono do número.
Por isso, a minha orientação é simples: diante de qualquer pedido de dinheiro, desconfie sempre e tente obter mais informações antes de pagar. As dicas das reportagens acima são boas, e a principal é confirmar por outro canal em vez de agir pela urgência.
O que ainda não se sabe
- Quantos golpes com IA acontecem no Brasil e quanto custam. As fontes que lemos não trazem estatísticas nacionais verificadas.
- Quantos casos como o do “neto” são reais. Os relatos que encontramos não trazem detalhes que permitam verificar.
- Como os bancos vão tratar o Pix feito sob deepfake. O relato do Correio sugere resistência, mas não traz a posição da instituição, e a decisão de 2023 do STJ não envolvia IA.
Perguntas frequentes
O que é deepfake?
Segundo a ANPD, são áudios, fotos e vídeos alterados ou criados com IA generativa, com alto grau de realismo.
Dá para perceber um vídeo ou uma voz falsa?
Às vezes. Podem aparecer falta de sincronia entre voz e boca, borrões e mudanças no rosto, mas a ESET observa que isso é difícil de notar em telas pequenas, e o Canaltech lembra que a ausência desses sinais não prova que o conteúdo seja real. O mais seguro é confirmar por outro canal.
O banco devolve o Pix de um golpe com IA?
Não há garantia. Acione o MED o quanto antes, registre o boletim de ocorrência e guarde as provas. Cada caso é analisado pelo banco.
Qual é o prazo do MED?
Para quem enviou o Pix e caiu em golpe, até 80 dias, segundo o BPMoney.
Como combinar uma palavra-senha em família?
Escolham uma palavra ou pergunta que só vocês saibam e que não esteja em redes sociais. Se alguém pedir dinheiro com urgência, peça a palavra ou ligue de volta para um número salvo.
Atualizado em 25 de outubro de 2026. As informações vêm das fontes citadas, algumas de relatos não verificados, e podem ser revistas. Prazos e regras do Pix mudam, então confirme no site do Banco Central e no seu banco.
Imagem: ilustração gerada por IA, sem relação com casos reais.
Fontes
- Canaltech: como se proteger de golpes feitos com IA? (24/10/2026)
- Canaltech: IA vai turbinar golpes em 2026, veja como se proteger (11/01/2026)
- Correio Braziliense: idoso recebe vídeo do “neto” pedindo ajuda, faz Pix de R$ 7 mil e descobre que rosto e voz foram criados por IA (18/10/2026)
- BPMoney: Pix, entenda o que é o MED e como o novo prazo amplia a proteção contra golpes (01/09/2026)
- Legismap: ANPD publica Radar Tecnológico sobre deepfakes (29/07/2026)


